Serra da Lousã: 6 Descobertas numa Caminhada Desafiante

O verão passado propus-me a uma caminhada pela serra da Lousã. Normalmente estou à vontade para me fazer ao caminho sozinha. Tenho alguma experiência em montanhismo e este percurso anunciava-se fácil. Coisa para durar umas duas horas.

No início, o trilho oferecia uma estrada larga, bem definida, com sombras e fresco. Foram dez minutos neste cenário até encontrar o rio. A partir daqui começou a subida. Nada de especial. Depois um pouco mais íngreme. Fazível. Ainda mais íngreme. E uma hora depois já tinha de usar três apoios (dois pés e uma mão) para trepar. Havia pedras altas e rochas imponentes. “Se o percurso está classificado com dificuldade média, esta subida há-de acabar não tarda,” pensei. E acabou. Uma hora e meia depois, para dar lugar a uma descida acentuada e de cascalho que me fazia escorregar a cada passo. Meia hora a deslizar encosta abaixo. Terminou. Outra subida. Desta vez de terra batida mas bastante inclinada. Mais um hora. Já ia com as duas horas que tinha previsto e mais meia quando finalmente cheguei à aldeia de xisto. Linda. Mágica. Em ruínas. 

Parei por momentos para beber água. Continuei enquanto trincava uma tosta. Talvez me tenha distraído com a tosta, com a aldeia ou com os meus pensamentos, quando dei por mim já não havia sinais do trilho. Não foi muito tempo que estive desatenta, mas dado o meu inexistente sentido de orientação foi o suficiente para me perder. 

Tinha três hipóteses: 

  • Aventurar-me por outro caminho ali ao lado, correndo o risco de me perder ainda mais na serra.
  • Seguir pela estrada asfaltada, sabendo que teria 18 quilómetros pela frente até ao local onde tinha deixado o carro.
  • Regressar pelo trilho que tinha feito, conhecendo as dificuldades que já me tinham sido apresentadas no caminho até ali.

Uma viagem que iria terminar em meia hora perspectivava-se agora bem mais longa.

Nos caminhos que já percorri pelas serras do mundo sempre tive dificuldade em lidar com as subidas. Olho para elas e acho que não sou capaz, as minhas pernas vão ceder, vai faltar-me o fôlego. Sofro por antecipação. É uma espécie de vertigem mas ao contrário. 

O que me fez optar por voltar pelo mesmo caminho foi exactamente o facto de ter passado tanto tempo a subir. Agora seria quase sempre a descer, havia de ser rápido. As subidas que passariam a ser descidas não deviam ter sido assim tão complicadas porque afinal eu tinha-as conseguido fazer.

Três dificuldades: Algum cansaço, sol abrasador e falta de água.

Avancei. Ficar ali parada é que certamente não me ia levar de volta ao início. 

Nestes passos de regresso percebi que afinal a subida que eu tinha empreendido era mesmo difícil e demorada. O que tornou a respectiva descida também ela um desafio. Espantei-me de a ter conseguido fazer e quase que me alegrei pela forma que o destino tinha arranjado para me mostrar a real dimensão das minhas capacidades físicas.

Enfrentar a adversidade da montanha é como concretizar um sonho ou perseguir uma paixão. Se não, vejamos:

1. Corra melhor ou pior estamos no percurso que escolhemos

Os nossos sonhos, tal como os caminhos, acontecem porque decidimos dar o primeiro passo. Seja para tomar contacto profundo com a natureza e paisagens que só estão acessíveis através de caminhos de pé posto ou para correr atrás de um propósito, é necessário decidir que queremos fazê-lo. E a seguir, precisamos agir.

2. Mesmo com as adversidades inerentes ao risco, o resultado é compensador

A concretização de um sonho pode falhar. Mas a maior frustração vai para quando nunca se tentou. Tal como uma caminhada. Há locais e paisagens que nunca conheceria se nunca tivesse penetrado no coração de algumas serras por veredas onde só cabem as minhas botas de caminhada, uma de cada vez. As aldeias, os riachos e as árvores que vi, os sons e os cheiros da montanha dificilmente os teria experimentado se tivesse optado por não sair da comodidade do carro na estrada asfaltada.

3. Pequenos objectivos somados geram grandes resultados

Por vezes a distância a percorrer até ao destino a alcançar é longa e esse facto pode ser desmotivador. No meu caminho de regresso, cansada, sem água e com o sol a queimar pensava: é só chegar ao cimo daquela ladeira e descanso, se conseguir passar aquela curva, depois o caminho até à ruína é mais fácil ou no final deste destrepe há o rio, posso refrescar-me. E assim sucessivamente. 

4. Foco no momento presente

No meu percurso de regresso houve uma altura em que dei por mim a escorregar várias vezes e a desequilibrar-me. Abrandei e pensei que arriscar-me a torcer um pé não podia ser uma hipótese. Por isso trouxe mais atenção à minha passada, abrandando o ritmo e assegurando-me que colocava os pés em locais firmes. Abandonei a ansiedade e a urgência de chegar. Por vezes, ao decidirmos concretizar um sonho deixamos a nossa mente pousar num futuro onde o caminho já foi percorrido. O futuro é algo que ainda não existe e se desviarmos a nossa  atenção do que estamos a viver no presente corremos o risco de que nunca chegue a existir.

5. Silenciar as vozes traiçoeiras

É importante reconhecermos quando as nossas vozes internas estão apenas a tentar boicotar-nos. Muitas vezes essas vozes são apenas os nossos medos infundados. A dada altura do meu caminho, no início de uma subida inclinada e sem sombras, surgiram vozes na minha cabeça que repetiam constantemente: “Não tens pernas para isto. Estás exausta. Não tens água. O sol que está vai acelerar a desidratação. Pára!” Estas vozes somos nós mesmos. Como tal temos o poder de as controlar. Temos autoridade sobre elas. Foi assim que decidi por um ponto de ordem e mandá-las calar.

6. Celebrar cada vitória, pequena ou grande

Tomamos consciência do nosso valor real. Arriscar a sair da zona de conforto, concretizar um sonho é um grande feito. A modéstia excessiva, a falta de valorização das nossas verdadeiras capacidades traem-nos tanto quanto a presunção exagerada. Há que gozar o momento em pleno, sermos honestos conosco mesmos. Nesta minha experiência tive a oportunidade de perceber que as minhas capacidades físicas e de determinação eram muito mais fortes do que eu julgava. Mais, ao fazer o caminho de regresso, o destino demonstrou-me que tenho muito mais potencial para fazer subidas íngremes do que alguma vez eu tinha julgado. Olhando para trás agora parece-me que nem foi assim um esforço tão grande como na altura eu quase me convenci que era.  

Viajar e por este mundo de forma consciente e sustentável e partilhar esta experiência seja através da escrita seja com quem desejar viajar comigo, é o que faço e o que me faz feliz. O caminho que tenho trilhado para chegar onde estou é muito semelhante à minha experiência na serra da Lousã no verão passado. Os métodos aprendidos pela experiência em caminhadas, em mindfulness e na escrita têm sido boas ferramentas nesta epopeia. Afinal na vida tudo se toca. 

Domitília Carvalho: Abrir caminho

No início de janeiro estive em Coimbra, cidade que ainda não conhecia. Era inevitável uma visita à Universidade de Coimbra, apesar da minha relação pouco pacífica com o ensino superior. E ainda bem que o fiz porque, nessa visita, fiquei a conhecer Domitila Miranda de Carvalho, uma mulher cuja jornada me impactou e me fez pensar sobre a minha rebeldia para com o ensino académico.

A história de Domitila começou ainda no século XIX quando embarcou numa aventura sem precedentes e, contra todas as normas sociais da época, decidiu que queria frequentar a Universidade de Coimbra. Claro que não foi fácil quando o acesso ao conhecimento e ao ensino superior era um privilégio exclusivamente masculino. 

Depois de concluir o liceu com distinção, Domitília escreveu uma carta ao reitor da Universidade, um homem com valores muito conservadores. Na carta, a jovem invocava as razões pelas quais lhe deveria ser permitido ocupar um lugar lado a lado com os colegas homens. Fê-lo tão bem que, sem argumentos para contrapor, o reitor viu-se obrigado a aceitar Domitília. Mas com algumas regras restritas que a estudante teria de cumprir. Entre elas, teria sempre de se vestir sobriamente de negro, usar um chapéu discreto e em nenhuma circunstância lhe seria permitido ter qualquer atitude que a fizesse evidenciar-se entre os colegas masculinos. Sabendo que, por vezes, é preciso ceder em alguma coisa para que seja possível perseguir um sonho, Domitília concordou. Matriculou-se na Universidade de Coimbra em outubro de 1891 e, durante cinco anos, foi a única estudante mulher no ensino superior português. Mais, sabendo que para provar o seu mérito teria de trabalhar o dobro do que os seus pares homens, Domitília não se matriculou apenas num curso mas em dois: Matemática e Filosofia. Mais, terminadas as duas licenciaturas, voltou a matricular-se, desta vez em Medicina que também concluiu com distinção. 

Chegou a Lisboa para exercer funções de médica na Assistência Nacional aos Tuberculosos mas percebeu que a sua vocação estava na área do ensino e, honrando o seu lado rebelde, tornou-se professora no Liceu D. Maria Pia (atualmente liceu Maria Amália Vaz de Carvalho), a primeira instituição de ensino secundário criada em Portugal para o sexo feminino. Ocupou o lugar de professora de Matemática. Mais uma vez tornou-se as primeira mulher portuguesa a lecionar aquela disciplina.

Domitília era uma mulher irreverente mas nunca perdeu um lado conservador. Era monárquica e seguiu os princípios político-ideológicos do Estado Novo, apoiando o salazarismo desde o seu início. Quero acreditar que foi uma das opções que tomou, consciente que seria uma forma de a ajudar a conquistar espaço para as mulheres num mundo onde, até então, só os homens podiam aceder. Aceitou, nessa condição, ser uma das três mulheres convidadas pela União Nacional para integrar a lista única de candidatos a deputados na I Legislatura da recém-criada Assembleia Nacional do Estado Novo. 

Ainda assim, as visões conservadoras de Domitila não a impediram de promover e assinar uma petição a favor da legalização do divórcio em 1909. É esta polivalência que me leva a acreditar que, apesar de apoiante de uma ditadura, talvez isso tenha sido o meio que lhe permitiu deixar a todas nós, mulheres portuguesas que vieram depois dela, a herança da igualdade de acesso a oportunidades em todas as áreas da sociedade.

Estou longe de ser defensora do princípio de que todos os meios justificam os fins. No caso de Domitília, as concessões que fez – mesmo as aparentemente mais extremas – permitiram-na abrir precedentes e quebrar regras sem sentido relativamente aos direitos das mulheres em Portugal. Eu tenho dois cursos superiores e uma pós-graduação porque, no final do século XIX, Domitília não aceitou um não como resposta no acesso à Universidade de Coimbra. Por isso, estou-lhe grata. Tal como o estou a todas as mulheres que vieram antes de mim e abriram o caminho para a possibilidade de hoje eu ter acesso ao que tenho. Consciente de que ainda assim o mundo não é igual para todos, espero sem nenhuma modéstia que, na minha condição de mulher empreendedora e que viaja sozinha para qualquer parte do mundo, deixe também eu trilhos marcados que permitam melhorar a condição daqueles que vierem a seguir a mim. 

Sugestões de alojamento:

Hotel Astória: Fiquei aqui alojada há cerca de 5 anos, quando tive de ir a Coimbra para uma reunião de trabalho. Adorei a localização, mas sobretudo, o charme deste hotel histórico. Passar a porta é como entrar diretamento no início do século XX, uma época pela qual sou fascinada. Tem um dos elevadores mais bonitos que conhecço.

JR Studios & Suites: Foi aqui que fiquei em janeiro, mesmo ao lado do Convento de São Francisco e em frente ao Convento de Santa Clara a Velha. Os quartos são espaçosos, com uma decoração moderna, elegante ao estilo minimalista. As varandas oferecem uma vista deslumbrante sobre a cidade.

ENCONTRO COM A SERENIDADE NA COSTA DE MARROCOS

Para este mês, escolhi falar sobre um destino que me é particularmente querido: a costa de Marrocos. Estive lá há cerca de 6 anos e não foi só uma viagem, foi uma experiência para os meus sentidos (as cores, os cheiros, os sabores, o som do muezzin a chamar à oração, as águas tépidas do Atlântico…). Fui sem expectativas e regressei apaixonada especialmente por dois motivos:

1. Sabes aquele sentimento de que uma viagem começa assim que colocamos os pés fora de casa? Marrocos oferece essa experiência de forma única e próxima, especialmente quando se viaja a partir de Portugal. Ao contrário de destinos mais distantes que obrigam a viagens de longo curso, Marrocos está a menos de duas horas de voo de Lisboa ou Porto. Pensando em termos de sustentabilidade, viagens de avião mais curtas significam:

  • Menos emissões de CO2
  • Orçamentos mais económicos
  • Menos cansaço quer nas horas intermináveis em aeroportos e aviões quer a recuperar de um eventual jet lag.

2. Ao longo da costa de Marrocos, permiti-me viajar tal como gosto: devagar, sem a ânsia de correr entre um local e o outro. Para leitura levava comigo o livro “A Arte de Viajar” de Alain de Botton que fala precisamente do aborrecimento que é uma viagem até a chegada ao destino e como tantas vezes nos desiludimos porque, quando chegamos, verificamos que o local eleito tem pouco a ver com a fotografia da brochura que nos levou a comprar a experiência. A Marrocos cheguei sem expectativas, sem imagens construídas por campanhas de marketing. E, no final, encantei-me. Descobri que a costa marroquina não é só um destino de praia, é um deleite para os sentidos.

De entre as várias opções que a Costa de Marrocos oferece, destaco cinco cidades que me ficaram no coração:

Agadir – O Renascimento após a adversidade

Talvez seja a cidade mais virada para o turismo de resorts mas seria muito redutor se a definisse apenas por isso. Agadir é um exemplo de resiliência e renascimento. Depois de um terramoto devastador em 1960 (que também foi fortemente sentido em Portugal), conseguiu erguer-se, literalmente, das cinzas e tem hoje uma das mais belas marginais do país. 

Asilah – Onde as praias arenosas encontram murais coloridos

Esta cidade, para além da praia, é a anfitriã do vibrante Festival de Artes que acontece todos os anos em agosto. Vivênciá-lo é como entrar num conto de fadas.

Essaouira – Para quem gosta de viagens no tempo

Aqui viaja-se mergulha-se no mar e também no mundo da fantasia ao caminharmos pelas ruas onde A Guerra dos Tronos foi filmado. Apesar de se ter tornado mais conhecida depois do sucesso da série, Essaouira não perdeu a autenticidade. Continua a ser um refúgio para quem procura descanso e relaxamento.

Dakhla – O Refúgio do Kitesurf

Um casamento perfeito entre o deserto e o mar. Um destino remoto, transformado em meca do surf e do kitesurf. Dakhla oferece experiências verdadeiramente autênticas para os que ousam aventurar-se até ela.

Taghazout – Onde as Ondas Contam Histórias

Uma vila de pescadores descontraída, um local ainda fora dos grandes circuitos turísticos e onde as ondas narram histórias de outros tempos. O clima ameno, a atmosfera acolhedora e as vistas deslumbrantes fazem deste lugar uma jóia escondida.

Vem descobrir a costa de Marrocos – uma experiência que vai além das palavras.

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O que têm as Selfies a ver com turismo sustentável

Num mundo inundado pela moda das selfies, há uma narrativa oculta que permeia o encanto superficial das imagens perfeitas para as redes sociais. Essa busca incessante pela fotografia ideal pode obscurecer a verdadeira essência de uma experiência de viagem.

O que observei recentemente no Museu d’Orsay, para além das obras exibidas, foi um catalisador para esta reflexão. Enquanto parava diante de quadros de impressionistas que admiro e sentia o privilégio poder estar ali de pé diante deles, outros turistas corriam de sala em sala, na ânsia de registar cada quadro com os seus smartphones. A minha quietude e atitude mais contemplativa fez com que levasse alguns encontrões e atropelos destes visitantes mais apressados. Fiquei com a sensação que, na pressa de percorrer todas as salas e registar o máximo de imagens, se perdia a oportunidade de apreciar realmente a arte à frente dos nossos olhos.

A situação fez-me lembrar a história de Karthika Gupta, uma fotógrafa e escritora, que há uns anos viu o seu filho ser atirado ao chão por um conjunto de turistas no parque de Yellowstone, nos EUA, todos ansiosos por conseguir registar a selfie perfeita com bisontes ao fundo.

O Fenómeno da Selfie

A cultura da selfie não é só uma tendência; é um fenómeno que pode transformar locais incríveis em cenários de corrida frenética. O medo de perder algo (conhecido internacionalmente como FOMO – Fear Of Missing Out) e a pressa constante para documentar cada segundo para as redes sociais têm uma relação direta com as consequências atuais da superlotação turística.

A busca pela imagem perfeita pode comprometer a essência de uma experiência de viagem. Para mim, é difícil pensar visitar um destino sem tempo para o respirar, para o sentir, para me conectar com o seu solo, os seus sons, os seus silêncios, as suas cores e estabelecer ligação com aqueles que melhor conhecem os locais por onde passo: os seus habitantes.

Como resposta a este fenómeno de turismo massificado, alguns destinos estão a implementar medidas restritivas numa tentativa de controlar a superlotação e preservar a autenticidade do local. É o caso da Nova Zelândia – que adotou medidas para desencorajar fotos em pontos turísticos – e da cidade de Hallstatt, na Áustria, que ergueu uma parede para bloquear a visão dos Alpes em protesto contra a poluição sonora e o excesso de selfies. Também em Vermont, nos EUA foi desencorajada a visita de influencers durante a popular temporada de folhas secas no outono. Todas estas medidas podem ser um bom ponto de partida para uma reflexão sobre a necessidade de equilibrar a promoção do turismo com a preservação da autenticidade e da tranquilidade de cada destino.

A minha experiência no Museu d’Orsay relembrou-me da importância de apreciar cada momento, especialmente diante de obras de arte que perduram através dos séculos e contam a história da Humanidade e da sua capacidade de produzir beleza. É uma pena se permitirmos que a corrida às selfies nos impeça de sentir a magia de uma pintura, de nos perdermos nas pinceladas que contam histórias ou da maravilha que é nos conectarmos genuinamente com o nosso semelhante.

Como defensora do turismo sustentável, vejo isso como uma oportunidade de uma abordagem mais consciente no mundo das viagens. Que bom que é desacelerar, apreciar cada momento e respeitar os destinos que visitamos. Esclarecer os viajantes sobre a importância de vivenciar, em vez de apenas capturar é fundamental para a preservação da autenticidade das experiências de viagem.

A nossa ânsia de imagens perfeitas não deve extinguir a verdadeira beleza e significado de cada lugar que exploramos. Viajar com um propósito mais profundo, permitindo que exista espaço para a contemplação, a conexão e a verdadeira apreciação da riqueza cultural que o mundo tem a oferecer é uma experiência muito mais rica do que apenas a busca da imagem ideal para partilhar nas redes sociais.

5 Lições Pré-Históricas na Serra de S. Mamede

Uma viagem pelo património megalítico do Norte Alentejano

O Norte Alentejano é uma das mais remotas e autênticas áreas de Portugal. Uma terra de contrastes que pode ir dos 40º à sombra a temperaturas negativas em menos de 24 horas. Esta zona pouco explorada por aventureiros e viajantes é habitada por gente sábia que aprendeu que o tempo, tal como a natureza, não se controla nem se mede em números. Quem se demora por esta região aprende que aqui esse tempo que medimos em segundos, minutos, horas ou dias, afinal não existe. Aqui tudo é eterno, intemporal.

Não será por acaso que é no Norte do Alentejo – mais concretamente no Parque Natural da Serra de São Mamede – que se encontra um importante património megalítico. Um conjunto generoso de construções erigidas entre o V e o II milénio a. C. por antepassados longínquos.

Numa abafada tarde de Verão partimos à procura dessas pedras milenares, guardiãs do segredo da longevidade, esperando descobrir o que as fez assim. Não regressámos imortais mas em cada uma aprendemos algo que, se quisermos, pode muito bem ser eterno. 

1 Anta do Sobral: Devagar se vai Longe

Cercada por uma manada de vacas, vamo-nos aproximando devagar como que a pedir licença. Sem nunca nos perder de vista, as vacas afastam-se lentamente. Neste acordo de paz silencioso, chegamos perto desta disposição de pedras em círculo onde se apoia uma laje que faz de tecto. Lá dentro está fresco. Deixamo-nos ficar uns momentos a aproveitar a conveniente pausa no calor. As vacas e a sua lentidão juntaram-se à pacatez da anta para nos ensinarem que a pressa pode ser o nosso pior inimigo. Porque nos desvia a atenção daquilo que pode ser realmente ameaçador e porque nos consome as poucas energias tão preciosas para nos manter funcionais debaixo de temperaturas tão extremas.


2 Anta da Melriça: Quietude não é preguiça

Encostados a um dos seus lados, imaginamos o que já lhe foi dado a observar: praticamente toda a história da humanidade. E, nós, enquanto vamos e vimos, inventamos, desejamos, fazemos, compramos, viajamos, descobrimos, consumimos e vivemos nesta pressa desenfreada de chegar a uma meta que só existe nas nossas mentes, desaparecemos aos poucos na sofreguidão da existência humana. Por oposição, a Melriça, consciente do segredo que existe no seu lugar de quietude, onde o tempo não conta, há-de sobreviver a tudo isto. Há-de sobreviver-nos a nós. “Aquietem-se!” aconselha-nos em silêncio.


3 Chafurdão das Lancheiras: Se não os podes vencer, junta-te a eles.

Há pouca consistência entre os entendidos sobre a real função destas construções. Sepulturas, abrigo de pastores, pequenas casas ou currais, o que é certo é que é raro o chafurdão que não tem a sua porta virada a nascente. Neste há pouco a explorar. As silvas encarregaram-se de aproveitar a aceitação total da sua presença e invadiram-no. Crescem determinadamente à sua volta, impedindo a aproximação dos mais curiosos. O que aprendemos: a rendição ao que não controlamos não é necessariamente mau. Pode até servir para afastar intrusos indesejados. 


4 Anta dos Currais das Galhordas: Unidos venceremos

Certamente que os dois carvalhos que ladeiam esta anta são uns jovens ao pé dela nas suas modestas centenas de anos de idade. Aprendizes e mestre mantêm a mesma atitude. Quietos, como que indiferentes ao que os rodeiam, vão absorvendo tudo o que se passa: ora recebem o sol de frente, ora acolhem os pingos de chuva, oram suportam uma comunidade de abelhas que ali instala a sua colmeia, ora oferecem sombra a um coelho apressado fugido do olhar persistente de uma ave de rapina que voa lá no alto. Daqui levamos duas lições: Não vivas só, junta-te aos outros e serás mais forte. E não te esqueças de ouvir os velhos. Eles sabem mais que tu. Não porque tenham estudado mais mas porque já viveram mais. 


5 Menir da Meada: Afinal o tamanho conta

Supõe-se que os menires foram construídos pelos nossos antepassados para garantir a fecundidade não só das tribos mas também da natureza, o que lhes garantia alimento. O menir da meada é orgulhosamente o maior da península Ibérica. Entre os seus quatro metros de altura e 15 toneladas de peso, certamente que cumpre o seu propósito. Como que a confirmar a eficácia com que exerce a sua função, uma manada de gamos selvagens aproxima-se num misto de medo e curiosidade. O clique da máquina fotográfica faz com que desapareçam rapidamente. Mas o menir, esse mantém a sua posição altiva sem indício de receio ou ameaça. Sim, o tamanho importa, mesmo quando é apenas uma questão de atitude. 

Regressamos guiados pela luz das estrelas que vão aparecendo no céu. O calor do dia começa a largar os nossos corpos na mesma pressa com que toda esta realidade existe. Seguimos com a sensação de que não existe eternidade nas nossas existências. A perpetuação de cada um está na capacidade de honrar a sua paixão. A nossa é sair de casa e descobrir o mundo. As memórias de viagens e aventuras que colecionamos são a nossa melhor fonte de eternidade. 

Junta-te a nós nesta descoberta do tempo milenar da Serra de S. Mamede. Para datas, valores e outras informações, contacta-nos aqui.

Lanzarote: Uma Jornada Interior na Terra do Vulcão

Há cerca de uma década, aterrei em Lanzarote, a ilha vulcânica que foi a casa de José Saramago. Este pedaço de paraíso atlântico, com sua origem forjada em erupções vulcânicas, exibe um solo de lava que oferece à paisagem uma beleza árida. Naquela altura, assim como a terra que escolhi visitar, a minha mente passava por um período de aridez. 

Descobrir a beleza na aridez

Nos primeiros dias, a ausência de vegetação transmitiu-me a sensação de monotonia. Mas à medida que a ilha se revelava, eu ia-me também descobrindo. Percebi que, embora a vegetação pudesse ser escassa, a vida brotava em lugares inesperados. Tal como a nossa própria jornada interior.

A minha mente, tal como a paisagem, estava num estado de aridez emocional. Lidava com a perda e a exaustão do frenético mundo televisivo onde trabalhava. A prática meditativa ainda não fazia parte da minha realidade. Ainda assim, o abrandar e o simplificar eram verbos que já estavam em mim. Investi tempo a olhar para o horizonte, a contemplar o vazio aparente que se manifestava à minha frente.

A metáfora constante da transformação

Hoje, Lanzarote é mais do que uma recordação; é uma metáfora constante da nossa capacidade de transformação. Comparo-a ao terreno da mente, onde os pensamentos brotam como as flores no deserto. A meditação, agora parte integrante da minha vida, tornou-se a água que nutre a minha paisagem interior, e me ajuda a revelar o meu potencial latente.

Assim como os agricultores que desafiaram a aridez de Lanzarote, podemos cultivar recantos férteis na nossa própria mente. Em vez de evitar as áreas aparentemente menos interessantes, a meditação nos convida a explorá-las, olhando-as como oportunidades de transformação e crescimento.

A prática diária torna-se uma jornada de descoberta, onde as dificuldades são transformadas em oportunidades de visualizar a realidade sob uma nova luz.

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